Globalização do século XVIII: A Conspiração de Minas
Este livro argumenta que a Revolução Americana fez muito mais do que criar uma nova nação; ela deu início a uma globalização das ideias políticas do século XVIII que uniu Filadélfia, Paris, Lisboa e as cidades mineradoras de Minas Gerais, no Brasil, em um único e disputado espaço revolucionário. No centro da narrativa está o Recueil des Loix Constitutives des Colonies Angloises, uma coleção francesa de textos constitucionais americanos que começou como uma ferramenta de propaganda diplomática de Benjamin Franklin em Versalhes, mas que mais tarde foi transformada — por meio de edições piratas, traduções erradas e leituras criativas — em um manual revolucionário para conspiradores brasileiros em 1789. Tratando a Conspiração de Minas como um projeto republicano sério, em vez de uma nota de rodapé provinciana, o livro mostra como as elites brasileiras usaram o Recueil para imaginar uma república constitucional ao estilo da Pensilvânia no coração do império português.
Com base na cópia anotada do Recueil preservada em Ouro Preto e nos enormes registros judiciais das devassas secretas, o autor reconstrói o mundo intelectual e social de Minas Gerais como uma “sociedade do pensamento”, onde magistrados, padres, poetas, oficiais da milícia e estudantes debatiam as constituições norte-americanas ao lado de Raynal, técnicas industriais de Birmingham e notícias de Saint-Domingue. Figuras como Franklin, Thomas Jefferson, José Joaquim Maia, José Álvares Maciel e Tiradentes aparecem como mediadores em complexas redes transatlânticas que movimentavam livros, pessoas e rumores mais rapidamente do que as autoridades imperiais podiam controlar. A história revela como as ideias de liberdade e autogoverno foram sempre traduzidas — para o francês, para o português, para os idiomas políticos locais — e como interpretações errôneas produtivas do constitucionalismo americano tornaram imagináveis novos futuros na periferia.
No entanto, o livro insiste que essa globalização dos ideais revolucionários se desenrolou dentro das sociedades escravocratas dos Estados Unidos e do Brasil e, em última análise, foi limitada por elas. Ao justapor o republicanismo branco de Jefferson com a visão de José Bonifácio de uma nação brasileira racialmente mista e ao detalhar as realidades escravocratas dos conspiradores mineiros, o livro expõe as profundas contradições entre a retórica universalista e a centralidade econômica da escravidão, da Virgínia a Minas Gerais, passando pelos booms do café e do algodão do século XIX. A repressão e a longa posteridade da Conspiração de Minas — sua tentativa de apagamento, posterior recuperação em arquivos e eventual canonização por meio do Dia de Tiradentes — permitem que o livro reformule a Era das Revoluções como genuinamente atlântica: uma globalização desigual e conflituosa, na qual projetos constitucionais, hierarquias raciais e sonhos anticoloniais se moviam juntos através de um mundo oceânico.
